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28 agosto, 2008

Caos

Na fonte, a luz. E a voz que nunca parava de sussurrar a mágoa que sentia. O vento preso em cativeiro. A lua encerrada na escuridão. E a voz ficou, mergulhando-a no silêncio nocturno das corujas e dos corvos que nunca dormem.
Na fonte, a Tal. E os cabelos que vagueavam rumo a lado nenhum. O coração vazio. As mãos tremidas. E lágrimas soltas. Os lábios esmorecidos. E o sal do mundo que nunca mais terminará.
Na voz, a dor. E a mágoa a soltar-se, a Tal mergulhada em vermelho rubro. Eram mãos, eram braços, eram cordas de outros tempos. A voz gritava. A Tal definhava.
No escuro estávamos nós. Os mudos. Os cegos. Os tristes. Somos os que assistem à dor. A dor que nunca partiu deste pedaço de terra amaldiçoado pelos Homens-Sábios.
Coleccionamos memórias, nunca nossas. Arrebanhamos e colocamos a um canto tudo aquilo que coleccionamos. Mas coleccionamos crimes. Dores. Pedaços de vida que não voltam. Outros coleccionam coisas. Nós apenas queremos recordações. Nunca nossas, porque não as conseguimos ter. Almadiçoados fomos na negra noite, e apenas sobrevivemos na esperança de um crime, de uma dor, de um olhar partido em mágoa e desespero.
Um dia, surgimos do nada. Fomos povo desconhecido por milénios, respirando e vivendo por existir apenas, sem nada que nos enraizasse nesta terra chamada Makim. Um dia, o Homem-Sábio chegou. Arrancou árvores, matou plantas, envenenou raízes. Matou milhares. Milhares de nós. Sem o saber.
Nunca nos mostrámos. Somos apenas espiões da noite escura, vamos de casa em casa, na sombra de cada credo, espreitar o coração de cada Homem-Sábio, o sonho e o desejo. Sabemos sempre quando a Negra virá. Sabemos sempre quando a Dourada se fará surgir. E quando o fogo virá devorar as casas, e os remoinhos levar os homens. Temos feito. Temos dito. Um dia a nossa colecção terminará.
Talvez prefiram chamar-nos demónios. Gostamos de ouvir o nosso nome uno. Apenas esse. Caos.

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14 agosto, 2008

O Mistério do Bom Samaritano

Gostava de caminhar de noite. Sentia-se livre ao caminhar pelas ruas escuras e nuas da cidade profunda, sem carros barulhentos, sem queixumes de pessoas apressadas, sem a luz cinzenta do sol que nunca irradiava por completo.
Gostava, assim, de se sentir livre. Longe da casa assustadora, que gemia por todos os cantos, indignando-se qual velhota de cem anos, por nunca ter sido remodelada. Pensava ouvir vozes, pensava ouvir risos de crianças, passos alarmantes, por vezes, mas sabia que tudo isso era impossível, pois em vinte anos aquele casarão negro, envelhecido pelos anos e maus-tratos, só conhecera uma alma – a sua.

De modo que, quando a noite descia pela cidade, procurava o silêncio e o sossego que a casa não lhe oferecia. Conhecia cada canto da cidade, cada mendigo de rua, ajudava-os por vezes, com sopa e cobertores antigos que não usava, cada polícia que patrulhava o turno da noite. Chamavam-lhe o Bom Samaritano, de início na brincadeira, mas de tanto uso colou-se à sua identidade como se de o seu nome se tratasse.
E assim o Bom Samaritano descia e subia as ruas, fazia conversa, descobria novas pessoas, sempre cumprindo o seu ritual – o sol nascia e recolhia à sua casa.
Mas o Bom Samaritano também provocava o seu temor. Os mais jovens, que se arrebanhavam em grupo, mergulhando em líquidos alcoólicos e drogas sintéticas, diziam-no vampiro, diziam-no portador de algo estranho. Os restantes, mais velhos e sabidos, talvez, chamavam-lhes estúpidos, dizendo que o cérebro já estava tão mirrado e parecido com um queijo suíço que só diziam asneiras. Não havia nenhum mistério, segundo estes, os candeeiros das ruas acendiam-se e apagavam-se devido à incompetência da companhia de electricidade da zona, que se marimbava para cumprir o seu trabalho, dizendo, em cada vistoria, que estava tudo dentro da normalidade.
Este era o mistério do homem.
Quando passava por cada rua, os candeeiros, novos e velhos, tremeluziam que nem loucos. À sua passagem, apagavam-se, voltando depois a acender-se, apagando-se novamente quando dobrava a esquina e, depois de uns bons dez minutos, tudo voltava à normalidade. O mesmo acontecia com os reclames de néon das lojas e dos bares. Os incrédulos culpavam a companhia. Os agnósticos não se atreviam sequer a contradizer ninguém. Os crédulos, esses, fugiam do homem, evitando-lhe o olhar e a fala, recusando-lhe a ajuda missionária.
Nunca dera muita importância ao facto de isto suceder. Acontecia-lhe desde criança, ver os candeeiros eléctricos enlouquecer à sua passagem e sempre o devera ao facto de que entre ele e a tecnologia, fosse ela qual fosse, era impossível qualquer relação. Tantas e tantas histórias que o homem podia contar, quantos desastres quase provocara, quantos namorados vira ceder à paixão num súbito corte de energia, quantos homens vira ceder ao medo…. Mas nada disso interessava, aquilo simplesmente acontecia. Ponto final. Nem tudo tem uma explicação, reforçava constantemente no seu interior. Tal como as suas origens e o seu destino. Tal como as vozes e os passos do casarão em que vivia…

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11 agosto, 2008

A Mulher que Sabia Demais

O empregado sorri, eternamente amarelo aquele sorriso, tão artificial como a rosa que resiste – sabe-se lá há quantos anos – naquele vasinho ridículo. A vela, tão caquética como a cadeira em que me sentei – nem sei como ainda não me estatelei no chão, confesso – deixa, mirradamente, entrever um pequeno calor azulado, de quase morte. Copos que tilintam e talheres que batem efusivamente em porcelana chinesa. Guardanapos esfarrapados, vício que tenho, compulsivo, quando algo que não me agrada está prestes a acontecer. E acontece.

Ó como sou certinha nas coisas que me acontecem – ruins, sublinhe-se -, nunca antes de me acontecerem as coisas mais simpáticas sinto o formigueiro redemoinhar o estômago, entranhar-se na pele e fazer-me ganhar a cor de uma menina de cabaret enquanto dá largas ao erotismo da sua dança. Nunca prevejo uma proposta indecente mascarada de elogio, nunca pressinto a noite em que a minha colega de casa chegará com um belo tinto e uma mão cheia de peripécias para partilhar, pela noite dentro. Nunca acerto com os dias de exibição dos meus filmes favoritos, nem tão pouco com o lançamento de um livro há muito esperado. E nunca, mas nunca, consigo perceber que em tal dia acordarei, com um belo espécime masculino ao lado, perfeito – tanto quanto um homem o consegue ser –, com um sorriso de cair para o lado – eu perco-me em sorrisos masculinos, o que querem? – e uns olhos que apelam ao canibalismo.

Bolas.
Numa mesa atrás de mim, um puto ranhoso, não lhe dou mais do que cinco anos de idade, mira-me com desprezo e tenta acertar-me com bolinhas de pão besuntadas em manteiga, e berra, berra como tudo, quando não acerta – o que, de facto, nunca veio a acontecer, na hora eterna que aquela amostra de criatura procurou o triunfo entre o meu cabelo encaracolado e o meu vestido que se mancha com qualquer merdinha que lá caia…. Pois é.
O formigueiro começou já quando me preparava para sair. Desci as escadas repetindo em ladainha que era só uma parvoíce, ia ser um jantar igual a tantos outros, provavelmente sairíamos depois, talvez acabasse em outras coisas que não vêm aqui ao caso. Pois é.
E lá fui eu, pé à frente do outro, mão metida na mala a verificar pela milionésima vez se tinha as chaves de casa, o gloss, o khol dos olhos, o bloco de papel e a caneta, de que nunca me separo. Entrada no carro. Conversa do costume. Segurando o formigueiro, segurando o formigueiro. Impossível. Formigueiro cresce. Semáforo vermelho. Formigueiro sobe, sobe, sobe. Semáforo ainda vermelho. Conversa da chacha entrecortada por silêncios pesados. Suspiros infindáveis. Semáforo eternamente vermelho. Conversa completamente desnecessária. Mão na mala a verificar pela milionésima primeira vez se lá tenho tudo. Pergunta estúpida. Semáforo verde.
Foi uma viagem interminável, essa. Quem me conhece sabe que odeio conversar por conversar, tal como odeio que me façam perguntas estúpidas e sem sentido. Quem me conhece, e são bem poucos esses, sabem que sou volátil, inconstante, alguém cujas acções nunca por nunca são expectáveis. E quem me conhece muito bem, sabe que basta uma palavra para o meu mundo mudar e para eu querer mudar o mundo dos outros. E não da melhor maneira entenda-se.
Chegada ao restaurante mais ridículo que conheci. Diz que é acolhedor e deserto, diz. Eu cá chamo-lhe outra coisa. Mas paciência, o descabimento de uma reserva feita num restaurante permanentemente vazio é um mistério que não quero nem tenho paciência para descobrir.
Ponto número 1 – Não consigo conceber que lá por pertencer ao sexo feminino, tenho o gosto em que me abram portas. Na graça do Santíssimo, sou perfeitinha – tenho dois braços, duas mãos, duas pernas e dez dedinhos perfeitamente saudáveis. Muito menos a parvónia do mulheres primeiro. Isso é completamente dispensável – se me apetecer vou à frente, se me apetecer vou atrás. A cortesia, meus caros, não reside nessas pequenas e dispensáveis coisas que inventam para agradar a uma mulher. Muitas poderão gostar dessas merdinhas, como eu lhes chamo, mas muitas olharão para vós como um perfeito parvo que ainda não percebeu que vive no século vinte e um.
Ponto número 2 – Se me convidas, chamas tu o empregado. Se me convidas tratas tu do pedido. E mesmo que não me convides sou eu que escolho o vinho porque tu só percebes de cerveja. Entendido? Perfeito. E lá começa a conversa de encher perus, eu a ver aranhas bem instaladas nas paredes do “acolhedor” local de repasto, pozinho de meses a deambular pelas cadeiras e mesas vazias. E um terrível puto de cinco anos, que acabou de encontrar a sua vítima da noite.
Ponto número 3 – Tu fazes o pedido mas sou eu que escolho o prato. Se alguém não percebe, após três encontros, que não pedimos Pato à Pequim porque não gostamos nem de pato, nem da mistura da fruta com comida salgada.... é porque, sinceramente, não ouve, ou pura simplesmente se está a borrifar. Depois de três encontros descubro que alguém considera normalíssimo fazer um pedido sem me consultar. Depois de três encontros descubro que o formigueiro que já se tinha instalado no meu cérebro vinha agora para ficar. E nem sequer tinha ainda pedido o vinho…

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05 agosto, 2008

O Monstro

Suspirava, suspirava, suspirava. O monstro esperava e suspirava, impaciente, pela próxima presa, que não havia meio de aparecer. Se o vissem na rua, quase de certeza se deixariam enganar pela sua aparência simpática - um jovial quarentão, em boa forma, dócil no trato e muito conversador. Diziam que tinha muitos amigos. Diziam que era um vizinho exemplar. O monstro sabia de tudo isso e congratulava-se interiormente. Era tão fácil enganar os homens. As mulheres. Mas nunca as crianças nem os animais...
Certo dia, deambulava pelo parque, numa das suas incursões em busca da próxima vítima.


Encontrou um amigo dos velhos tempos de adolescência inconsciente e louca, acompanhado de uma família em expansão. A esposa do amigo, loírissima e elegante, conseguia, apesar dos seus oito meses de gravidez, deixar transparecer o seu porte de bailarina, simpatizou desde logo com o monstro, pensando para si que até que enfim o marido lhe apresentava uma pessoa decente, dos seus tempos idos. Os outros eram todos patéticos, rematou para os seus botões. Depois de vinte minutos de recordações e perguntas da praxe do como-é-que-está-fulano-ou sincrano-já-não-o-vejo-há-imenso-tempo, um puto de óculos azul eléctrico, com os seus cinco anos de idade, mais coisa, menos coisa, correu para junto do trio que acabava de rir a alto e bom som, sucumbindo à má língua dos velhos tempos de escola. Reclamava atenção, gritando para o pai, exigindo-lhe que fosse jogar à bola, como lhe havia prometido. Foi então que o monstro olhou para o puto. E o puto olhou o monstro. Viu-lhe nos olhos qualquer coisa de estranho, de maléfico. Algo que uma criança nunca consegue explicar. Fugiu, para longe, deixando o monstro de mão esticada para o cumprimentar, à homenzinho, gritando um nem penses nisso, tu és mau!, para perto de um carvalho secular.
E assim o monstro descobriu que, para além dos cães, dos gatos e do papagaio residente do seu prédio, havia, afinal, quem não conseguisse enganar. Os cães rosnavam-lhe ao passar, ameaçando instantaneamente um ataque que lhe deixaria marcas inesquecíveis, os gatos enlouqueciam, assanhando-se na sua presença. E o papagaio da velhota do 5º F, que lhe conhecia tão bem os hábitos, sem ele perceber muito bem como, desatava aos impropérios assim que acabava de subir as escadas do prédio. Assassino, reles, és um monstro. Monstro. Monstro! Sempre a mesma lengalenga, durante os quinze minutos seguintes, até a dona o acalmar sabe-se lá como. Depois o toque da campainha e as mil desculpas de D. Ximena, desdobrando-se em vergonha e indignação. Nunca se descobriu como aprendera o papagaio Tony aquelas palavras, nem nunca ouve explicação para aquele ódio do animal.
Mas o monstro sabia porquê. As suas vítimas sabiam porquê. A lua e as ruas escuras, o parque abandonado à noite, o rio que acolhia os corpos mutilados e deformados de pavor.
E o monstro espreita, suspirando. Procurando a sua próxima vítima. Alguém que se deixe levar pelas aparências e lhe confie a vida naquela que será a sua última noite...
Tenha cuidado, muito cuidado... Não vá ele andar por aí, à sua espera...

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20 julho, 2007

O Muro II


Dias e noites passavam sem que o Muro mostrasse qualquer ponto fraco – Narima investigava minuciosamente cada detalhe, cada reentrância, pois cada buraquinho por mais banal e minúsculo que fosse poderia simbolizar a passagem para o lado de lá. Mirmara observava-a, calada, com os seus grandes olhos verdes, e imaginava as peripécias que as esperariam do outro lado.
“E se convocássemos o Conselho?” – disse, após um longo silêncio - “Tu estás a regular bem, ó bruxinha? Parece que esses teus olhos não te dão grande inteligência, livra! Então achas mesmo que se o Conselho deixasse ir qualquer um para o Outro Lado este Muro estava assim? Sem porta, sem nada? Não sei se já reparaste mas nem guardas há aqui, o que é muito estranho para quem diz que o Muro suporta um grande perigo…Tira essa ideia da cabecinha e ajuda-me é a procurar o raio de um ponto fraco!”. Dito isto, Narima abanava a cabeça, pensando para com os seus cabelos ruivos que idiota de parceira no crime teria arranjado, quando Mirmara voltou a propor que convocassem o Conselho dos Anciãos – “Mas ouve lá, tu não me ouviste até ao fim… Então e se fizéssemos uma coisa tão má, tão má…Tão má que nos expulsassem de Nunca Vi e o castigo fosse atravessar o Muro?”. Narima parou a sua busca, olhou Mirmara de cima abaixo – tão abaixo quanto era possível do alto dos seus dois metros – e sorriu. “Talvez não sejas assim tão tonta, ó bruxinha…Mas que coisa tão má haveremos nós de fazer para enfurecer o Conselho? Ou já te esqueceste que aquilo é um bando de gente mole? Toda a gente lhes dá a volta com uma pinta… Bastavam as tuas tias começarem a pedinchar, a minha avó a berrar e ia o plano por água abaixo! Não pode ser uma coisa qualquer…”
“Pois não, lá isso tens razão… Mas se começássemos a falar do Muro a toda a gente, se tentássemos fazer com que as pessoas questionem o motivo por que o Muro existe, talvez consigamos – além disso, lembrei-me que podíamos começar pelos pirralhos…esses são os mais impressionáveis e já sabes que se descaem logo… se aterrorizarmos os putos ao ponto de massacrarem os pais com perguntas – e tu sabes que os pais odeiam perguntas, sobretudo quando não sabem a resposta – os pais ficam aterrorizados ao ponto de começarem a pensar como descalçar a bota de não saberem responder aos filhos – e tu sabes que os pais nunca gostam de passar por parvos – e começam a perguntar de boca em boca até aterrorizarem o Conselho… que nos convoca e expulsa. Que tal?”. “Hum…meia-leca, sinceramente não sei… os putos já passam por tremores quando me vêem… fogem logo! Hum…mas não é mal pensado… De modo que vamos ser mazinhas e revolucionar Nunca Vi… Eu sempre gostei do Che, mas nunca me vi como uma revolucionária! Vamos lá a isso!”.
Em três dias e três noites, Mirmara e Narima tornaram a pacífica Nunca Vi num pequeno Inferno dantesco, numa torre de babel em ponto pequeno em que ninguém se entendia. O plano correra-lhes como esperado – os olhos verdes de Mirmara e a altura gigante de Narima chegavam para aterrorizar os pequenos Nunca-Vistos que, ao ouvirem as histórias que inventavam sobre o Muro, ficavam de tal modo esgazeados que houve quem não dormisse uma semana. Os pais Nunca-Vistos começaram a aparecer irritados durante a manhã, cansados e preocupados durante a tarde e completamente fora de si durante a noite. E de Nunca-Visto em Nunca-Visto, o interrogatório sobre o Muro foi aumentando, infiltrando-se nas casas, corroendo as famílias, deitando por terra qualquer argumento dos Anciãos. E assim, ao quarto dia, Mirmara e Narima foram levadas pelos guardas ao Conselho, onde as esperava toda e qualquer forma de vida da aldeia de Nunca Vi.

(continuará...)

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14 julho, 2007

O Muro

Eram duas. Opostas, como a água e o vinho, únicas na beleza como elas só. Uma ruiva, sardenta, de ar matreiro mas confiante, ultrapassava em muito a altura média de um habitante natural daquelas bandas. De facto, Narima chegava aos dois metros de altura, fazendo sombra a qualquer um dos homens mais fortes da aldeia. Ao seu lado, Mirmara não passava de uma anãzinha, com o seu escasso metro e meio. Morena, de longas tranças ebúrneas, inspirava o terror junto de qualquer criança da aldeia, não pelo trato difícil que lhe era característico, mas por uns olhos verdes incandescentes, que granjearam a fama de bruxa de todas as mulheres da sua família. Juntas, aspiravam ao mesmo sonho de menina sonhadora, candidatas a um punhado de viagens pelo mundo desconhecido e à descoberta de novas gentes e exóticos sabores. Para além do Muro, estava o Mundo, diziam, acalentando a noite que as libertasse das amarras da pequena aldeia de Nunca Vi.
O Muro, imponente, esmagador na sua cinzenta-parda inexpugnabilidade, resistira à voz dos tempos esquecidos e na memória dos Nunca-Vistos ficara só a impossibilidade de o transpor. Existia para conter um Desconhecido perdido algures na tradição oral e a memória dos Anciãos, ou talvez porque, calado, dizia a avó de Narima, o mal não ganha força. Calado o nome, esquecido no tempo, perdido para sempre.
E agora, para aquelas duas meninas aventureiras, o Muro simbolizava a concretização de um sonho...

by Lunaris

(continuará)

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24 janeiro, 2007

O Chapéu: É chegada a altura das apresentações

Fazemos aqui uma pequena pausa, caro leitor. Já conhecemos alguns episódios de certa forma importantes no percurso do nosso protagonista, mas nem por isso lhe conhecemos a origem ou a graça de seu Amo. Há quem diga que são pormenores assim que dão densidade realista a um conto, no entanto, esse aspecto pouco ou nada nos importa - já demos a conhecer que o nosso protagonista é um chapéu e, portanto, dentro das nossas capacidades cognitivas, julgamos que um chapéu não sofre, não pensa e não vive. Pelo menos na nossa "realidade", no nosso dia-a-dia, é, para nós, impossível, que um chapéu sofra ou sinta qualquer espécie de emoção ou sentimento.
Pois bem, meu caro leitor, trata-se que nem isso passaria pela cabeça de Masciel, o Amo, que como já vimos despejava no seu chapéu qualquer alegria ou amargura. Este senhor Masciel possuiria uns vinte e poucos anos, digamos uns vinte e três, dado que nem os próprios progenitores sabiam ao certo o dia e o ano em que o pequeno Salapita dera o primeiro berro da vida, exigindo mais ar que o permitido a qualquer recém-nascido da nossa espécie.

Masciel Salapita era, na verdade, um homem invulgar. Fizera a quarta classe, um triunfo à época, beijocando todas as raparigas de Talecre (a nossa aldeia) e arredores, arrebanhando a fama de rapaz garboso, atrevido mas de sucesso no trato e no latim. Pelo menos assim o definia a Mariquitas, mestre escola de outros tempos que já não voltam, em que a disciplina e o rigor no saber e no ser eram pilares essenciais da cultura de qualquer pirralho, pobre ou rico.

(continua na próxima semana)

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17 janeiro, 2007

O Chapéu: O dia em que (quase) tudo mudou

Um dia, em plena praça central da vila, o mundo começou para este chapéu. Perdoem-me os leitores, passo à correcção. O mundo começou tanto para o amo, como para o chapéu. Isto porque, neste belo dia de um Abril enregelado, fora de série por aquelas paragens, a praça emanava um perfume inquietante, sedutor e perigoso que fizera rolar cabeças e chapéus, trancinhas de menina e até os bonés esburacados dos ardinas.
Neste dia, num momento, a vila mudou e com ela mudou a vida de todos quantos se encontravam na praça àquela hora, à hora do perfume emanado por uma senhora inquietante, morenaça mas bem feita, anca larga mas perfeitinha, perna longa e bem torneada. Um mimo! - ecoava-se nas bocas masculinas; As senhoritas, ufanas, reuniam-se que nem bando de pombos em roda da migalhita de pão e desatavam aos impropérios sibilados sobre aquela que atravessava a praça, calmamente, dignamente, sedutoramente.
Saberá o nobre leitor que, na verdade, sendo o nosso protagonista um chapéu, claro está que toda esta celeuma em redor de uma personagem feminina pouco ou nada lhe interessará. É certo. De facto, não foram nem as pernas bem torneadas, nem o vestido branco justo, nem sequer as luvas de cetim que tapavam meio braço daquela beleza singular...mas um chapelinho fino, de florzinha branca e delicada, discreta ao lado, as abas de uma leveza sem igual. E um perfume muito mais requintado do que qualquer outro chapéu feminino que o nosso Chapéu já houvera sentido. Ora o Chapéu, francamente garboso, de estatura média e negro greu mas de uma sobriedade como não muitos possuem - e isto tudo apesar dos maus tratos e dos desgostos que o amo lhe infligia - encheu o olho da Chapelinha, que se fez desentendida e levou a sua dona avante, forçando-a a seguir em frente e impedindo-a de se embeiçar vez pelo Amo do nosso Chapéu.

(continua na próxima semana)

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10 janeiro, 2007

O Chapéu


O chapéu reflectia o estado do seu amo. A boa disposição quando encostado de lado, qual Bogart ressuscitado, em plena despedida de Casablanca, sem pensar na morte às mãos dos nazis. A paixão e o profundo respeito pela amada, quando com a mão nervosa o colava ao peito, em dias de namoro à janela, de piropos camuflados em profundas divagações sobre o estado do tempo e de como a luz do Sol sublimava sobretudo a beleza de uma Lady Marian enclausurada pelos ferros trabalhados em flor da pequena janelinha.
Ora o chapéu temia sobretudo a cólera do amo, a irritação, o estado de exaltação tal que já não houvesse nada a fazer. Um dia, lembrava-se, ufano, chegara mesmo a ser pisado, retorcido e espancado junto ao balcão da tasca da terra, quando o amo tudo deitara a perder no jogo. Ou até mesmo daquela vez que mandou o presidente da freguesia para "o alho e para a cebola" (sic) porque este o tinha molhado com a rega do quintalório da junta, chegando a utilizá-lo como arma de tabefe no presidente.
Ora isto tinha de acabar. Este chapéu chegava a temer, verdadeiramente, pela sua vida. Todos os dias sentia a ansiedade das emoções que aí viriam, todos os dias o nervosismo de ser atirado ao chão ou de ser obrigado a ouvir aquelas lamechices do namoro à janela. Estava francamente farto, queixava-se aos outros chapéus que por ele passavam na rua, cumprimentando-o e inquirindo-o acerca da sua situação. Por vezes, quando o amo se lembrava de o colocar no bengaleiro, reuniam todos os chapéus e aconselhavam-no na sua amargura e consciência de uma vida difícil. Todos haviam passado por coisas semelhantes: uns eram tão maltratados que o dono deveria ser preso ou passar pelo mesmo, desabafavam; outros, recordavam tempos piores e a estima que voltaram a sentir, devido ao escasso poder económico na vila para alargar a família dos Chapéus; mas havia outros, os mais jovens e rebeldes que eram apologistas da vingança e do "larga-piolho" na cabeça do amo, até que este se visse obrigado a estimar um tão útil complemento, que até o protegeria do dito piolho.
Mas o nosso chapéu não se conformava. De noite, pendurado no bengaleiro à entrada da casa do amo, perdia horas de sono e descanso tentando magicar uma fórmula mágica que o imunizasse das emoções do amo....

(continua na próxima semana)

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